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Artigos › 26/07/2018

Os doze cestos que sobraram

Os Evangelhos narram dois episódios de multiplicação de pães, realizados por Jesus. De verdade o Senhor multiplicou pães e peixes, curas, exorcismos, visitas, palavras, discípulos! Foi a fonte de água viva para a Samaritana e a prometeu a todos que nele cressem, garantindo-lhes que eles mesmos seriam transformados em fontes de água viva. De fato, em todo tempo, quem vive a sua fé transborda o dom do Espírito para o bem da Igreja e crescimento do Reino de Deus.

Ele o fez porque multiplicou sempre o amor, aquele amor que trouxe da Trindade Santíssima, onde desde toda a eternidade o Pai e o Filho e o Espírito Santo vivem no amor eterno e perfeito, para doá-lo, como foi feito na criação do universo, na redenção e na santificação, pois Deus continua a agir em benefício da obra de suas mãos. E no meio de toda a criação, somos privilegiados por podermos responder com amor a este amor.

A multiplicação começa com a sensibilidade apurada de Jesus diante das necessidades humanas. Um povo parecido com ovelhas sem pastor, um povo sedento de atenção, um povo faminto do pão da terra, ao qual Jesus dará depois o Pão vivo descido dos Céus, ele mesmo.

A multiplicação acontece com a participação daqueles que do meio da multidão se tornaram discípulos. A eles cabe identificar quem tem algo para oferecer. Até hoje é assim, pois os missionários de Cristo ampliam o olhar para descobrir pães, peixes, palavras ou gestos de amor a serem partilhados.

A multiplicação não acontece apenas com os bens postos à disposição. Se assim fosse, sistemas ideológicos ou políticos, com suas promessas de paraísos na terra, teriam sido bem sucedidos. Os bens, poucos ou muitos, para se multiplicarem efetiva e dignamente, hão de ser postos nas mãos de Deus! Uma multidão sentada na grama, campo aberto para o milagre. Jesus tomou o pão, deu graças e o distribuiu. Depois, fez o mesmo com os peixes. E são os mesmos gestos da Eucaristia!

Todos ficaram satisfeitos e entusiasmados. E Jesus pediu que recolhessem o que sobrou e foram doze cestos cheios de pães. E esta é a nossa porta de entrada no episódio, pois sobrou pão para nós! Trata-se de uma verdadeira receita de milagre! Nesta porta há lugar para todos os que clamam por ele e pela sua força salvadora. Aproximem-se todos os que se encontram estropiados e machucados pelos caminhos. Sejam bem vindos os sedentos de justiça. Venham os que estão feridos no corpo ou na alma. Há cestos cheios do pão multiplicado pela presença de Jesus.

Entretanto, muitos de nós se perguntam a respeito dos muitos males e desigualdades sociais que nos escandalizam e podem até suscitar a revolta. A Igreja tem testemunhado, no correr da história, nas inumerosíssimas iniciativas de caridade espalhadas pelo mundo inteiro o milagre da partilha e da multiplicação. E ainda, maravilha que atravessa os séculos, a quantidade e a qualidade de pessoas de todas as idades e condições sociais, que se dispuseram a seguir o exemplo do menino que colaborou com o milagre. E não nos esqueçamos de entregar o que somos e temos nas mãos daquele que, sendo Deus, tem nas mãos o poder do milagre. Vale a pena entrar nesta escola!

Vamos além da multiplicação realizada pelo Senhor. O milagre aponta para o alto, uma altura feita de amor, com o qual ele multiplica sua presença em cada Missa. A pequenez do pão e do vinho que apresentamos é matéria tomada nas mãos pelo Senhor, para que o Pão da Vida e o Vinho da Salvação, seu Corpo e Sangue, sustentem nossos passos de peregrinos!

Recuperemos a fome e a sede, de justiça, de igualdade, de alimento e, a principal de todas, a fome e a sede de Deus!

Por Dom Alberto Taveira Corrêa – Arcebispo de Belém do Pará/Via CNBB

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